No Dia Internacional da Privacidade de Dados, é impossível falar de proteção digital sem reconhecer que mulheres negras 40+ vivem uma experiência profundamente marcada por desigualdades estruturais — inclusive dentro das tecnologias que usamos todos os dias.
A privacidade de dados, muitas vezes tratada como um tema técnico, é na verdade uma questão de poder, autonomia e autodefesa. Ela determina quem tem controle sobre nossas informações, como somos classificadas por sistemas automatizados e quais riscos enfrentamos ao navegar em ambientes digitais que não foram construídos para nos proteger.
O pesquisador Tarcízio Silva nos lembra que o racismo algorítmico não é um acidente. Ele é a continuidade das hierarquias sociais inscritas em bancos de dados, modelos de reconhecimento facial, sistemas de vigilância e plataformas digitais. Isso significa que nossos rostos, nossos nomes e nossos comportamentos podem ser interpretados de forma enviesada, ampliando a exposição a golpes, assédio, vigilância e uso indevido de informações pessoais.
Para mulheres negras 40+, que já lidam com múltiplas camadas de vulnerabilidade, a autogestão digital se torna uma ferramenta estratégica de liderança pessoal. Ela envolve compreender como nossos dados circulam, identificar riscos, fortalecer práticas de segurança e reivindicar nossos direitos previstos na Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD).
No Desenlaçando, entendemos essa jornada como parte de um processo mais amplo de reconstrução de autonomia. Por isso, incorporamos ao nosso conteúdo, disponibilizados em redes sociais, símbolos Adinkra que reforçam a dimensão ancestral dessa caminhada:
- Fawohodie — liberdade e independência;
- Aya — resiliência diante de ambientes hostis e,
- Dwennimmen — força guiada por humildade e sabedoria.
Esses símbolos nos lembram que a proteção digital não é apenas sobre tecnologia. É sobre honrar nossa história, preservar nossa dignidade e sustentar a liderança da própria vida — inclusive no ambiente online.
Neste 28 de janeiro, o convite é para olhar para a privacidade de dados como uma prática cotidiana de cuidado e poder. Autogestão digital não é um luxo: é uma necessidade para que possamos existir, criar e liderar com segurança em um mundo cada vez mais mediado por algoritmos.
Privacidade é poder. E poder também se cultiva.
Carla Carvalho