Iemanjá como arquétipo de liderança emocional
Na cosmologia iorubá, Iemanjá é associada ao acolhimento, à nutrição, à maternidade e ao movimento das águas. Mas reduzir sua força ao cuidado seria um equívoco. As águas que acolhem também são as águas que moldam rochas, carregam o que precisa ir embora, renovam e anunciam novos ciclos.
Essa dualidade — acolher e transformar — é uma metáfora perfeita para a jornada emocional de mulheres negras maduras.
A filosofia iorubá nos lembra que tudo que vive está em constante movimento. Nada é fixo, nada é definitivo. Assim como o mar, nossas emoções também pedem fluxo, limpeza e renovação. Liderar emocionalmente é aprender a reconhecer esse movimento interno e agir com consciência, não com automatismo.
Autocuidado como retorno para si
O autocuidado, para mulheres negras 40+, não é luxo. É sobrevivência. E mais do que isso, é retorno ao próprio ori, conceito iorubá que representa a cabeça, o destino, a identidade profunda.
Cuidar de si é honrar o próprio ori.
Iemanjá nos ensina que autocuidado não é apenas descanso, mas escolha. Escolher o que fica e o que vai. Escolher o que nutre e o que drena. Escolher o que merece espaço e o que precisa ser devolvido ao mar.
Autocuidado é um ato de soberania.
Limites como proteção energética
As águas de Iemanjá não acolhem tudo. Elas devolvem o que não pertence. Elas empurram para longe o que ameaça a vida. Elas delimitam território.
Para mulheres negras 40+, aprender a dizer “não” é um dos maiores exercícios de liderança emocional. Limites não são muros, são filtros. Escolhas conscientes sobre onde colocar energia, tempo e presença.
A filosofia iorubá ensina que cada pessoa tem seu axé, sua força vital. E que essa força precisa ser preservada.
Colocar limites é preservar axé.
Transformação como prática cotidiana
A força de Iemanjá não está apenas no acolhimento, alcança a capacidade de transformar. Água parada adoece. Água em movimento cura.
Liderança emocional é isso: não permitir que dores antigas se tornem águas estagnadas dentro de nós.
Mulheres negras 40+ carregam histórias profundas — mas também carregam a potência de reescrever essas histórias com maturidade, consciência e autonomia.
Transformar não é esquecer. É ressignificar. É escolher um novo caminho mesmo quando o passado insiste em chamar.
Corpo como território sagrado
Na tradição iorubá, o corpo é extensão do espírito. Não existe separação entre físico, emocional e espiritual.
Por isso, Iemanjá também nos ensina sobre sensualidade, presença e prazer. O corpo maduro não é um corpo que perde potência, é um corpo que ganha profundidade.
Autocuidado é também:
- ouvir o corpo;
- respeitar seus ritmos;
- honrar seus ciclos;
- permitir prazer e,
- descansar sem culpa.
O corpo é o primeiro altar.
A maturidade como mar aberto
Chegar aos 40+ é entrar em um mar mais profundo. É ter consciência das próprias marés internas. É saber que não se precisa mais provar nada para ninguém. É reconhecer que a força que acolhe também é a força que transforma.
Mulheres negras maduras carregam uma sabedoria que não se aprende em livros — se aprende na vida, na ancestralidade, na resistência e na coragem de continuar.
Iemanjá nos lembra que é possível ser:
- firme e suave;
- forte e sensível;
- cuidar e ser cuidada e,
- liderar sem endurecer.
A maturidade é o momento de assumir o próprio trono interno.
O chamado das águas
O ensinamento de Iemanjá para mulheres negras 40+ é simples e profundo:
Acolha o que te fortalece. Transforme o que te atravessa. Devolva ao mar o que te pesa.
Autocuidado é liderança. Liderança é autocuidado. E ambas são caminhos de volta para si.
Que cada mulher que lê este texto encontre, nas águas de Iemanjá, a permissão para viver com mais leveza, consciência e poder.
Carla Carvalho