Vamos falar sem rodeios: quando dizem que mulheres negras são “minoria”, não estão falando de números. Estão falando de poder. Estão falando de quem pode viver plenamente e de quem precisa lutar todos os dias para garantir o básico.
E é justamente por isso que essa narrativa precisa ser quebrada agora.
Nós não somos minoria. Nós somos fundação. Somos coluna. Somos linha de frente — da criação, da resistência e da transformação.
E quem diz isso não sou só eu. É a história. É a teoria. São os dados. É a vida real.
Gênero e raça não são destino — são estruturas de poder
A historiadora Joan Scott explica que gênero não é uma diferença natural entre homens e mulheres. É uma forma de organizar o poder. Quando juntamos isso com o racismo, entendemos por que mulheres negras enfrentam barreiras que outras mulheres nem imaginam.
Não é “mimimi”. Não é “vitimismo”. É estrutura.
E estrutura não se muda com silêncio. Se muda com consciência, coragem e ação.
Lélia Gonzalez já avisava: somos o “outro do outro” — e ainda assim sustentamos tudo
Lélia Gonzalez, uma das maiores intelectuais brasileiras, dizia que a mulher negra é o “outro do outro”: invisibilizada pelo racismo, ignorada pelo feminismo tradicional e sempre colocada no lugar de quem serve, nunca de quem lidera.
Mas Lélia também dizia outra coisa: somos nós que seguramos este país nas costas.
E isso é verdade até hoje.
Somos nós que criamos, que cuidamos, que organizamos, que mantemos a comunidade viva. Somos nós que transformamos dor em movimento. Somos nós que abrimos caminhos onde não havia estrada.
Se isso não é protagonismo, eu não sei o que é.
E quando olhamos para Salvador, a cidade mais negra fora da África, os números gritam
E aqui eu quero que você preste atenção, porque isso não é teoria — é vida real, é agora, é aqui.
- Em 2025, Salvador registrou 1.441 casos de violações contra mulheres apenas nos primeiros meses do ano.
- Na Bahia, foram 3.273 casos no mesmo período, com 395 denúncias formalizadas.
- A Pesquisa Estadual de Violência contra a Mulher (DataSenado, 2024) mostrou que 81% das mulheres baianas percebem aumento da violência doméstica, e 23% afirmam ter sofrido violência nos últimos 12 meses.
- Os Centros de Referência (CRAMs) de Salvador seguem lotados, atendendo mulheres que buscam proteção, orientação e sobrevivência.
Esses números não são estatísticas. São mulheres. São vidas. São histórias interrompidas por uma estrutura que insiste em nos controlar.
E é por isso que eu digo: não somos minoria — somos alvo. E justamente por isso, somos força.
A maturidade é o nosso ponto de virada
Mulheres negras 40+ não estão “envelhecendo”. Estão chegando no auge.
Aos 40, 50, 60, nós:
- já entendemos o jogo;
- já reconhecemos as armadilhas;
- já sabemos o valor da nossa voz;
- já não aceitamos migalhas e,
- já não pedimos licença para existir.
A maturidade nos dá algo que o sistema teme: consciência + coragem + autonomia.
E quando uma mulher negra madura desperta para o próprio poder, ela não desperta sozinha. Ela desperta gerações.
Criar e resistir: duas forças que sempre caminharam conosco
Criar é o que fazemos desde sempre. Resistir também.
Criamos cultura, linguagem, espiritualidade, comunidade, soluções. Resistimos ao racismo, ao machismo, à violência, ao silenciamento.
E agora, mais do que nunca, precisamos unir essas duas forças.
Criar novos caminhos. Resistir às velhas estruturas. E ocupar o lugar que sempre foi nosso — mas que nunca nos foi dado.
Não queremos só sobreviver — queremos viver com plenitude
O 8 de março não é um dia para flores. É um dia para consciência. Para coragem. Para posicionamento.
E eu quero que você leve isso com você:
Nós não somos minoria. Nós somos a linha de frente da criação. Somos a linha de frente da resistência. E somos a linha de frente do futuro.
Quando uma mulher negra 40+ se levanta, ela não levanta sozinha. Ela levanta a família, a comunidade, a história — e o país inteiro.
E é exatamente isso que estamos fazendo agora.
Carla Carvalho
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