1 MAIO LARANJA - EDITORIAL
Carla Carvalho

Carla Carvalho

Direitos, Autogestão & Sexualidades

Editorial Maio Laranja

Quando a violência veste silêncio: o abuso sexual que marca meninas negras e a urgência de romper esse ciclo

Maio Laranja chega como um lembrete incômodo, mas necessário: o Brasil ainda falha em proteger suas meninas. E quando essas meninas são negras, a negligência ganha contornos ainda mais profundos. Há uma ferida aberta que atravessa gerações, e fingir que ela não existe nunca a fez cicatrizar.

O livro Abuso, da jornalista Ana Paula Araújo, expõe uma verdade que o país insiste em empurrar para os cantos escuros da casa: a maior parte dos abusos acontece dentro do lar, praticada por pessoas próximas, muitas vezes protegidas por laços familiares e por uma cultura que prefere preservar agressores a acolher vítimas. Entre os relatos que a autora ouviu, uma frase se repete como um eco doloroso: “ninguém acreditou em mim”. Para meninas negras, essa descrença é quase regra, não exceção.

O racismo cria uma lente distorcida que adultiza meninas negras, sexualiza seus corpos e as coloca em um lugar perverso onde sua dor é minimizada e sua palavra, desacreditada. É como se a sociedade dissesse, sem dizer: você não é tão criança assim. Você não é tão vítima assim. Você não merece tanta proteção assim. E isso é violência.

A legislação brasileira é clara. O Estatuto da Criança e do Adolescente afirma que nenhuma criança pode ser submetida a violência, negligência ou discriminação. O Código Penal tipifica o estupro de vulnerável com penas severas. A Lei 13.431/2017 garante escuta especializada e proteção integral. Mas leis não bastam quando a estrutura social insiste em não enxergar meninas negras como crianças dignas de cuidado. A letra da lei não alcança quem a sociedade insiste em deixar à margem.

O silêncio que envolve o abuso sexual é uma segunda agressão. Ele se instala nas frases que tentam calar: “não fala isso”, “você deve ter entendido errado”, “não invente história”, “isso vai destruir a família”. Ele se instala no medo de não ser levada a sério. Ele se instala na vergonha que não pertence à vítima, mas que ela carrega como se fosse sua.

E esse silêncio não desaparece com o tempo. Ele cresce junto com essas meninas, que se tornam mulheres negras adultas, muitas vezes 40+, carregando marcas que ninguém viu, ninguém nomeou, ninguém cuidou. Marcas que se manifestam na dificuldade de confiar, de estabelecer limites, de viver a própria sexualidade sem culpa, de ocupar espaços sem sentir que precisam pedir permissão para existir.

Mas há um ponto de virada possível. Reconhecer a violência vivida não é reviver a dor; é recuperar a narrativa. É olhar para a própria história com a firmeza de quem sabe que a culpa nunca foi sua. É buscar apoio, reconstruir a relação com o corpo, ressignificar o prazer, romper pactos de silêncio que nunca deveriam ter sido impostos. É transformar trauma em consciência, e consciência em ação.

Maio Laranja não é apenas uma campanha. É um chamado. É a chance de proteger as meninas negras de hoje e, ao mesmo tempo, honrar as mulheres negras que foram silenciadas ontem. É afirmar que infância negra existe, merece cuidado e precisa ser defendida. É exigir que a sociedade pare de naturalizar a violência e comece a responsabilizar quem a pratica. É lembrar que denunciar salva vidas, que acolher transforma destinos e que romper o silêncio é um ato de amor radical.

Proteger meninas negras é proteger o futuro. E é, também, reparar o passado.

Nota de Transparência: este texto foi desenvolvido com o apoio de ferramentas de inteligência artificial (IA) para ampliar a pesquisa, organizar informações e fortalecer a clareza da mensagem. Todo o conteúdo final reflete a curadoria, a visão editorial e o posicionamento de Carla Carvalho, alinhados ao propósito do Desenlaçando.

Carla Carvalho

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