Carla Carvalho

Carla Carvalho

Direitos, Autogestão & Sexualidades

A conquista do voto feminino e a cidadania das mulheres negras

Avanços, apagamentos e o que ainda falta

A conquista do voto feminino no Brasil, em 24 de fevereiro de 1932, é frequentemente celebrada como um marco da cidadania feminina. Mas, quando olhamos pela lente da raça, percebemos que essa história não foi — e ainda não é — igual para todas. Mulheres negras, especialmente as de classes populares, não acessaram imediatamente esse direito. O voto, que deveria ser universal, nasceu atravessado por critérios de renda, escolaridade e status civil que excluíam justamente aquelas que sustentavam o país com seu trabalho.

A cidadania feminina no Brasil sempre foi construída de forma desigual. E, para mulheres negras, o direito ao voto não significou automaticamente o direito à participação política plena. A luta continua, e Salvador, cidade de maioria negra, é um espelho potente dessas contradições.

Avanços: o voto como porta de entrada para a cidadania

O Código Eleitoral de 1932 abriu uma brecha histórica: pela primeira vez, mulheres puderam votar e ser votadas. Mas esse avanço só se tornou real para mulheres negras décadas depois, conforme barreiras como analfabetismo, pobreza e racismo institucional foram sendo enfrentadas.

Ainda assim, o voto abriu caminhos para que mulheres negras começassem a disputar espaços de poder, mesmo que de forma lenta e desigual.

Apagamentos: quando a história oficial não conta a nossa história

A narrativa tradicional sobre o voto feminino costuma destacar figuras brancas, letradas e de elite. Mas a luta das mulheres negras pela cidadania política é antiga e profunda, ainda que invisibilizada.

Pesquisas como a dissertação “Mulheres negras na política: trajetória social e política de mulheres negras às eleições municipais de Salvador (2008–2012)”, de Maísa Maria Vale, da Universidade Federal da Bahia, mostram como a memória histórica dos feitos de mulheres negras foi sistematicamente apagada pelas estruturas patriarcais e racistas.

O estudo evidencia que, mesmo quando conseguem se candidatar, mulheres negras enfrentam múltiplas camadas de opressão: racismo, machismo, desigualdade econômica e falta de apoio partidário. Ainda assim, seguem construindo trajetórias de resistência e transformação.

Salvador-BA: território negro, mas ainda não plenamente representado

Salvador é a cidade mais negra fora do continente africano. Ainda assim, a representatividade política das mulheres negras não acompanha essa realidade. A capital baiana é um território onde a força, a cultura e a ancestralidade negras estruturam a vida cotidiana — mas isso não se traduz, na mesma proporção, em presença institucional.

Pesquisas como a de Maísa Maria Vale, da Universidade Federal da Bahia, mostram que as candidaturas de mulheres negras nas eleições municipais de 2008 e 2012 enfrentaram obstáculos profundos: falta de financiamento, pouco apoio partidário, racismo institucional e estereótipos que tentam limitar sua atuação pública. Mesmo assim, essas mulheres seguem construindo trajetórias de resistência e liderança.

Essa desigualdade histórica não é nova. Ela se conecta a um passado de apagamentos, mas também de insurgência — e é aqui que a figura de Luísa Mahin se torna indispensável.

Luísa Mahin: a raiz da insurgência política negra em Salvador

Luísa Mahin, mulher negra, liberta, quituteira e estrategista, é uma das figuras mais emblemáticas da resistência negra na Bahia do século XIX. Associada à articulação da Revolta dos Malês (1835), ela representa o que a história oficial tentou apagar: mulheres negras que, mesmo sem direitos civis, já exerciam liderança política, intelectual e comunitária.

Sua atuação mostra que a política das mulheres negras em Salvador não começa nas urnas — começa na rua, na cozinha, no terreiro, na articulação de redes de proteção e insurgência. Luísa Mahin é o símbolo de uma cidadania que sempre existiu, mesmo quando o Estado negava sua existência.

Da ancestralidade à contemporaneidade

A força de Luísa Mahin ecoa nas trajetórias de mulheres negras que hoje ocupam espaços de poder e influência na Bahia, como:

  • Lívia Vaz, promotora e referência no enfrentamento ao racismo institucional.
  • Carla Akotirene, intelectual que fortalece o debate sobre interseccionalidade e políticas públicas.
  • Egbomi Cici, liderança religiosa e comunitária.
  • Maria Felipa e Zeferina, figuras históricas que moldaram a resistência negra baiana.

Essas mulheres — ancestrais e contemporâneas — mostram que a política negra feminina em Salvador é ampla, profunda e multifacetada. Ela acontece nas instituições, mas também nos terreiros, nos movimentos sociais, nas comunidades, nas redes de cuidado e na produção intelectual.

O paradoxo de Salvador

Mesmo sendo um território de maioria negra, Salvador ainda não garante às mulheres negras:

  • representatividade proporcional,
  • financiamento adequado,
  • segurança contra violência política,
  • visibilidade midiática e,
  • apoio partidário consistente.

O resultado é um cenário em que a força política das mulheres negras é imensa, mas sua presença institucional ainda é limitada — não por falta de capacidade, mas por estruturas que historicamente as excluem.

O que ainda falta: desafios para a cidadania política plena

Apesar dos avanços, a cidadania política das mulheres negras ainda enfrenta barreiras profundas:

a) Sub-representação institucional

Mesmo em Salvador, onde a população negra é maioria, a presença de mulheres negras em cargos eletivos ainda é muito inferior ao esperado.

b) Racismo estrutural e violência política

Mulheres negras são as que mais sofrem ataques, deslegitimação e violência política de gênero e raça.

c) Barreiras econômicas

Campanhas eleitorais exigem recursos — e mulheres negras são as que menos têm acesso a financiamento e redes de apoio.

d) Invisibilidade midiática

A mídia ainda privilegia narrativas brancas e masculinas, dificultando a construção de autoridade pública para mulheres negras.

e) Falta de políticas de incentivo

Sem mecanismos robustos de financiamento, formação e proteção, a entrada e permanência de mulheres negras na política segue frágil.

O futuro: reconstruir a cidadania a partir da maturidade e da ancestralidade

Para mulheres negras 40+, a cidadania política ganha novos contornos. É a fase da vida em que:

  • a autonomia se fortalece,
  • a consciência racial se aprofunda,
  • a liderança se torna mais autêntica,
  • e a ancestralidade se manifesta como força política.

A participação política — seja votando, ocupando cargos, liderando movimentos, educando outras mulheres ou influenciando debates — é uma extensão natural dessa maturidade.

E, como lembram as lideranças negras da Bahia, a luta política das mulheres negras é sempre coletiva. É sobre honrar as ancestrais que não puderam votar e abrir caminhos para as que virão.

Conclusão

A conquista do voto feminino foi um marco, mas não o fim da luta. Para mulheres negras, especialmente em Salvador, a cidadania política é um processo contínuo de enfrentamento, reconstrução e afirmação.

O futuro da política brasileira passa, necessariamente, pela ampliação da presença, da voz e do poder das mulheres negras. E isso exige memória, ação e coragem.

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