Quero começar te convidando a imaginar algo simples. Imagine que cada uma de nós recebeu, ao nascer, um livro. Um livro que não escrevemos. Um livro que já chega com capítulos inteiros sobre como devemos viver, amar, desejar. E, para mulheres negras, esse livro nunca foi neutro. Ele foi escrito com tinta de controle, de vigilância, e de hiperssexualização. E mesmo quando chegamos aos 40, 50, 60 anos, ainda tentam nos convencer de que nosso valor está ligado ao quanto desejamos ou ao quanto somos desejadas.
É por isso que, hoje, escrevo sobre autonomia. Autonomia através da assexualidade.
Porque quando uma mulher negra diz “eu não sinto atração sexual”, ela não está apenas descrevendo uma experiência. Ela está recuperando a caneta e reescrevendo o próprio livro. Dizendo: “eu não sigo esse script — eu escrevo o meu”.
E isso é autonomia. Autonomia profunda. Autonomia que incomoda. Autonomia que desloca estruturas.
Foucault chamava de governamentalidade essa engrenagem que tenta moldar nossos corpos, nossos comportamentos, nossos desejos. E a sexualidade é uma das ferramentas mais eficientes dessa máquina. A sociedade nos diz que sexo é obrigação, que desejo é prova de saúde, que atração é sinal de normalidade. E que, se você não sente, algo está errado.
Agora, pense no impacto disso quando falamos de mulheres negras. Corpos historicamente lidos como “quentes”, “exagerados”, e sempre disponíveis. Corpos que nunca tiveram o direito ao silêncio, ao limite, ao descanso. Então, quando uma mulher negra 40+ afirma sua assexualidade, ela está fazendo algo profundamente político. Ela está desgovernando-se. Ela está saindo do trilho. Ela está dizendo: “o meu corpo não é território público”.
E isso é autonomia fora do script.
A biopolítica — esse poder que administra vidas e regula populações — sempre tratou o corpo negro como fronteira. Ora hiperssexualizado, ora desumanizado. E é por isso que a assexualidade, nesse corpo, tem uma força tão grande. Ela rompe com a narrativa de que somos definidas pelo desejo alheio. Ela devolve o corpo para quem sempre deveria ter sido sua única autora: nós mesmas.
E aqui entra algo que todas nós conhecemos bem: a prestação de contas. Quando uma mulher diz que é assexual, o mundo pergunta. Quando uma mulher negra diz isso, o mundo exige justificativas. “Tem certeza?” “Isso é trauma?” “Você só não encontrou o homem certo.” “Isso passa.” Essas frases não são dúvidas inocentes. São mecanismos de controle. São tentativas de recolocar o corpo no script esperado.
Mas autonomia não se explica. Autonomia se vive.
Autonomia sexual não é sobre fazer sexo. É sobre poder escolher. Escolher não desejar. Escolher não performar. Escolher não se justificar. Escolher não se moldar ao olhar do outro. E, para muitas mulheres negras, essa escolha é também um caminho de cura. Cura das violências simbólicas e concretas. Cura das expectativas sufocantes. Cura da ideia de que nosso corpo é sempre um “serviço” a ser prestado.
A assexualidade abre espaço para uma maturidade vivida com dignidade, com profundidade, com verdade. Ela nos devolve o direito de existir sem pressões, sem roteiros, sem cobranças. O direito de existir com autonomia.
Então, quando celebramos o Dia Internacional da Assexualidade, não estamos falando apenas de uma orientação sexual. E, sim, de liberdade, autoria e autonomia fora do script.
A assexualidade, vivida por mulheres negras, é um ato de insubmissão. É uma recusa ao controle. É uma afirmação de soberania. É, acima de tudo, o direito de existir sem pedir permissão.
E talvez essa seja a pergunta mais importante que a assexualidade nos coloca: quem escreveu o roteiro que você acha que precisa seguir? Porque autonomia é isso: recuperar a caneta, olhar para o script que nos entregaram e ter a coragem de escrever outra coisa. A assexualidade nos lembra que existe vida fora do roteiro, que existe liberdade fora da obrigação e que existe potência em simplesmente existir do nosso jeito.
Para mulheres negras, especialmente depois dos 40, essa autonomia não é apenas pessoal. Ela é histórica. Ela é política. Ela é ancestral. É a afirmação de que nossos corpos não são destino, não são espetáculo, não são serviço. São território sagrado.
E quando uma mulher negra escolhe viver fora do script sexual, ela não abre caminho só para si. Ela abre uma trilha para todas nós.
No fim, é isso que a assexualidade nos oferece: o direito de existir sem pedir permissão. O direito de ser inteira sem performar nada. O direito de viver uma vida que seja verdadeiramente nossa.
Isso, isso é autonomia fora do script.
Carla Carvalho