Saúde, poder e o que ainda precisamos enfrentar
No Brasil, falar sobre homens trans ainda é, muitas vezes, romper um silêncio imposto. Falar sobre homens trans na maturidade, então, é atravessar camadas ainda mais profundas de invisibilidade. Entre o acesso à saúde, a vivência do corpo, a sexualidade e o direito ao prazer, existe um território marcado por disputas políticas, institucionais e simbólicas — e é justamente nesse território que precisamos lançar luz.
No Dia Nacional de Luta e Resistência de Homens Trans e Pessoas Transmasculinas, refletir sobre esses corpos é mais do que um gesto de reconhecimento: é um ato de enfrentamento às estruturas que historicamente tentaram apagá-los.
O Estado e o corpo: quando o poder define quem pode existir
A pensadora Catharine MacKinnon, referência na teoria do Estado, nos lembra que as instituições não são neutras. Elas organizam o mundo a partir de hierarquias que determinam quem é visto, quem é protegido e quem permanece à margem. Quando aplicamos essa lente às vivências transmasculinas, especialmente após os 40, percebemos como o Estado — por meio de políticas públicas insuficientes, protocolos binários e práticas excludentes — molda a forma como esses corpos são tratados.
O apagamento não é acidental. Ele é estrutural.
E é justamente por isso que homens trans maduros enfrentam barreiras que vão muito além do consultório médico: são barreiras que atravessam o direito ao cuidado, ao prazer, ao reconhecimento e à própria existência.
Acesso à saúde: o que ainda precisa mudar
Para homens trans 40+, o cuidado em saúde é atravessado por desafios que se acumulam ao longo da vida:
- Profissionais despreparados, que não reconhecem identidades, pronomes ou necessidades específicas.
- Protocolos de cuidado desatualizados, que insistem em enquadrar corpos em categorias rígidas.
- Dificuldade de acesso à hormonização e acompanhamento especializado, fundamentais para a saúde integral na maturidade.
- Desinformação, que cria medo, afasta do cuidado e reforça estigmas.
- Ambientes de saúde que não acolhem, desde formulários binários até olhares que ferem.
Essas barreiras não são apenas práticas — são políticas. São expressões do mesmo Estado que MacKinnon analisa: um Estado que define quais vidas são plenamente vivíveis e quais são constantemente negociadas.
Corpos dissidentes na maturidade: sexualidade, prazer e autonomia
Se a saúde é um campo de disputa, a sexualidade não fica atrás. Corpos transmasculinos maduros desafiam a lógica dominante sobre quem pode desejar, ser desejado e viver o próprio corpo com autonomia.
A maturidade, para esses homens, não é um ponto de chegada. É um processo de reinvenção.
É afirmar que o prazer não tem idade, não tem forma única, não tem roteiro pré-definido. É romper com a ideia de que masculinidade é um molde rígido, e mostrar que ela pode ser múltipla, sensível, política e profundamente encarnada.
Aqui, o pensamento de MacKinnon volta a ecoar: se o poder define o que é reconhecido como legítimo, então viver o próprio corpo — e o próprio prazer — torna-se um ato de resistência.
Sankofa: voltar para reparar, avançar para transformar
O símbolo africano Sankofa nos ensina que “não é tabu voltar atrás e buscar o que ficou para trás”. Essa sabedoria é essencial quando pensamos nas vivências transmasculinas.
Voltar ao passado não é retroceder. É reconhecer as violências, os apagamentos e as narrativas negadas — para que possamos construir um presente mais justo e um futuro mais amplo.
Sankofa nos lembra que reparar é tão importante quanto avançar. E que nenhuma transformação verdadeira acontece sem revisitar o que foi silenciado.
A maturidade transmasculina como potência
Corpos transmasculinos maduros carregam histórias de resistência, coragem e reinvenção. Eles ampliam o imaginário do que é ser homem, do que é envelhecer e do que é viver o próprio corpo com dignidade.
Reconhecer essas vivências é enfrentar as hierarquias que MacKinnon denuncia. É exigir que o Estado cumpra seu papel. É afirmar que saúde, prazer e autonomia são direitos — não concessões.
E, acima de tudo, é lembrar que visibilidade não é um gesto simbólico: é cuidado, é política, é sobrevivência.
Carla Carvalho