O Dia Internacional da Medicina Integrativa é uma oportunidade essencial para refletirmos sobre como o cuidado com o corpo, a mente e as emoções pode — e deve — ser vivido de forma integral, acessível e alinhada às nossas histórias. Para mulheres negras 40+, que carregam jornadas múltiplas, responsabilidades acumuladas e desafios estruturais, falar de saúde integrativa é falar de autonomia, dignidade e direito ao bem-estar.
A Medicina Integrativa propõe uma visão ampliada da saúde: ela considera a pessoa em sua totalidade, unindo práticas convencionais da medicina com abordagens complementares que fortalecem o equilíbrio físico, emocional, espiritual e social. No Brasil, essa perspectiva ganha força por meio das Práticas Integrativas e Complementares em Saúde (PICS), oferecidas gratuitamente pelo Sistema Único de Saúde (SUS).
O que são as PICS e por que elas importam?
As PICS fazem parte de uma política pública que reconhece saberes tradicionais, terapias naturais e práticas de autocuidado como parte legítima do cuidado em saúde. Entre elas estão:
- Meditação;
- Yoga;
- Fitoterapia;
- Auriculoterapia;
- Reiki;
- Terapias comunitárias e,
- Práticas corporais e integrativas diversas.
Essas práticas ajudam a reduzir estresse, melhorar o sono, fortalecer a saúde emocional, apoiar processos de transição como a menopausa e ampliar a consciência corporal — aspectos fundamentais para mulheres que buscam reconexão consigo mesmas após décadas de sobrecarga.
Saúde integrativa é também um direito
A Política Nacional de Práticas Integrativas e Complementares (PNPIC) garante que essas terapias façam parte da rede pública de saúde. Isso significa que toda mulher tem direito a:
- Acesso gratuito às práticas integrativas;
- Atendimento humanizado e integral;
- Informação clara sobre os serviços disponíveis e,
- Cuidado que considere sua história, cultura e contexto social.
Para mulheres negras, esse acesso é ainda mais urgente. Somos o grupo que mais enfrenta barreiras no sistema de saúde, seja pela falta de acolhimento, pelo racismo institucional ou pela invisibilização das nossas dores. As PICS, quando oferecidas com responsabilidade e respeito, podem ser uma porta de entrada para um cuidado mais sensível, mais próximo e mais alinhado às nossas vivências.
Ancestralidade como medicina
Muitas das práticas reconhecidas hoje pela Medicina Integrativa dialogam com saberes ancestrais africanos e afro-diaspóricos: o uso de ervas, os banhos energéticos, as rezas, o cuidado comunitário, a espiritualidade como fonte de equilíbrio. Ao valorizar essas práticas, o SUS reconhece, ainda que tardiamente, a potência de conhecimentos que sempre fizeram parte da nossa história.
Celebrar este dia é também celebrar a sabedoria das mulheres que vieram antes de nós.
Autocuidado como ferramenta de liderança
Para mulheres negras 40+, autocuidado não é luxo. É estratégia de sobrevivência, de liderança e de autogestão. A Medicina Integrativa oferece caminhos para:
- Reduzir a sobrecarga mental;
- Reorganizar energia e foco;
- Reconectar-se ao corpo e ao prazer;
- Fortalecer autoestima e autonomia e,
- Criar rotinas de cuidado possíveis e sustentáveis.
Quando uma mulher negra cuida de si, rompe ciclos, redefine prioridades e abre espaço para viver com mais liberdade.
Como acessar as PICS no SUS
As práticas integrativas estão disponíveis em diversas unidades básicas de saúde, centros de referência e programas municipais. Cada cidade organiza sua oferta de forma própria, por isso vale:
- Perguntar na sua Unidade Básica de Saúde;
- Verificar a programação de práticas corporais e terapias comunitárias e,
- Informar-se sobre grupos, oficinas e atendimentos individuais.
O acesso é gratuito e faz parte do seu direito à saúde integral.
O Dia Internacional da Medicina Integrativa nos lembra que cuidar de si é um ato político, ancestral e profundamente transformador. Que mais mulheres negras 40+ possam acessar práticas que honram seus corpos, suas histórias e seus futuros.
Carla Carvalho