Há gestos que parecem simples, quase automáticos, como um abraço. Mas, por trás dessa naturalidade social, existe uma camada de significado que nem sempre é percebida: o corpo de uma mulher não é território de acesso livre, e nenhum gesto de afeto deveria ser presumido como permitido.
Vivemos em uma cultura que romantiza a espontaneidade, mas ignora a importância do consentimento. O toque, quando imposto, deixa de ser carinho e se transforma em invasão — ainda que envolto em boas intenções. É nesse ponto que precisamos desacelerar, observar e reaprender.
Consentimento não é burocracia emocional. É cuidado. É responsabilidade. É a escolha consciente de perguntar antes de tocar, de ouvir antes de agir, de reconhecer que cada mulher tem o direito de definir seus próprios limites. E limites não são barreiras para afastar o mundo; são estruturas que sustentam segurança, dignidade e autonomia.
Falar sobre isso é mais do que necessário — é urgente. Porque só quando entendemos que afeto não pode ser imposto é que abrimos espaço para relações verdadeiramente humanas, onde o respeito não é exceção, e, sim, fundamento.
No Dia do Abraço, celebrado em 21 de janeiro, somos convidadas a lembrar que o afeto é uma das formas mais bonitas de encontro humano. Também somos chamadas a reconhecer que nenhum gesto, por mais simbólico que seja, pode existir sem liberdade.
Abraçar é oferecer presença — nunca impor. É estender os braços, não ocupar o espaço do/a outro/a. É um convite, não uma exigência.
Que este dia sirva não apenas para multiplicar abraços, mas para multiplicar consciência. Porque o abraço mais verdadeiro é aquele que nasce do consentimento, do respeito e da escolha. E quando entendemos isso, transformamos o afeto em cuidado — e o cuidado em cultura.
Carla Carvalho