Falar de masturbação é falar de autonomia. E quando digo isso, não estou falando de técnica, nem de performance, nem de nada que precise ser aprendido como se fosse uma habilidade externa. Estou falando daquele momento em que você se encontra consigo mesma, sem pressa, sem plateia, sem expectativa. Um momento em que você se pergunta: “O que eu realmente sinto no meu próprio corpo?” e percebe que essa pergunta, tão simples, já é profundamente política.
A masturbação é uma prática de autoconhecimento. É quando você descobre ritmos, sensações, limites, preferências. E isso importa porque, historicamente, ensinaram às mulheres — e especialmente às mulheres negras — que seus corpos existem para servir, agradar, cuidar, mas raramente para sentir por si mesmas. Quando uma mulher negra se permite explorar o próprio corpo, ela está fazendo algo que rompe com séculos de controle, silenciamento e distorção sobre sua sexualidade.
Essa conversa também toca a saúde de um jeito mais amplo. Maio Cinza, por exemplo, é o mês de conscientização sobre o câncer cerebral, e ele nos lembra que saúde não é só ausência de doença, mas também presença de cuidado, presença de si. A masturbação pode ser um desses momentos de presença. Não como tratamento, claro, mas como uma forma de reconectar corpo e mente, de aliviar tensões, de lembrar que existe um espaço íntimo onde você pode simplesmente existir sem cobrança. É um gesto de cuidado consigo mesma, e cuidado também é autonomia.
Quando pensamos em como aprendemos a viver a sexualidade, entramos no campo dos scripts sexuais. Roteiros sociais que dizem quem deve desejar, como deve agir, o que é permitido e o que é vergonhoso. Esses roteiros não são neutros: carregam gênero, raça, religião, classe. Para mulheres negras, eles foram especialmente violentos. Ora hipersexualizadas, ora dessexualizadas, quase nunca vistas como sujeitos do próprio desejo. A masturbação, nesse contexto, é quase como pegar o roteiro, rasgar algumas páginas e escrever outras novas. É dizer: “Eu escolho o que sinto. Eu escrevo minha história.”
E aqui entra uma nota importante sobre a psicologia sexual. Esse campo estuda como o desejo, o prazer e a resposta sexual são construídos ao longo da vida, influenciados por experiências, cultura, emoções e relações. Ele nos ajuda a entender que o prazer não é só biologia; é também significado, narrativa, contexto. Ou seja, quando uma mulher se masturba, ela não está apenas estimulando o corpo — está reorganizando sentidos, desmontando crenças, criando novas possibilidades de sentir. A psicologia sexual mostra que o prazer próprio é parte da construção da identidade, não um detalhe periférico.
Quando olhamos para a história, vemos como mulheres negras foram afastadas do próprio prazer. Seus corpos foram tratados como propriedade, como força de trabalho, como objetos de desejo alheio, mas quase nunca como território de sensações próprias. Isso deixou marcas profundas: culpa, vergonha, medo, desconexão. Por isso, falar de masturbação é também falar de reparação simbólica. É devolver às mulheres negras o direito de sentir sem pedir permissão, de existir para além do olhar do outro.
Se quisermos ir mais fundo, podemos trazer a filosofia política para a conversa. Conceitos como biopolítica, governamentalidade e performatividade ajudam a entender como o prazer é regulado. A biopolítica mostra como instituições controlam corpos; a governamentalidade revela como aprendemos a nos vigiar; a performatividade explica como repetimos normas de gênero sem perceber. Quando uma mulher negra se masturba, ela rompe com esses mecanismos. Ela afirma: “Meu corpo não é território de controle externo.” É um gesto íntimo, mas profundamente político.
Descolonizar o corpo, nesse sentido, não é um conceito distante. É algo que acontece no cotidiano, nos pequenos gestos, nas escolhas íntimas. É tirar o peso da culpa, recuperar a relação com as próprias sensações, reconhecer que o corpo é fonte de conhecimento. A masturbação é uma dessas práticas de reapropriação. É um retorno ao próprio território.
No fim das contas, falar de masturbação é falar de liberdade. De autonomia, de saúde, de política do corpo, de subjetividade, de resistência. Para mulheres negras, especialmente, é um caminho de cura. É um gesto que diz: “Eu existo para além do olhar do outro.”
Nota de transparência
Este texto foi desenvolvido em colaboração com ferramentas de inteligência artificial, utilizadas como apoio para organização de ideias, refinamento de linguagem e estruturação narrativa. Todo o conteúdo, posicionamento e responsabilidade técnica são meus, enquanto profissional da área de sexualidades. As IA’s atuaram como instrumento de escrita — não como fonte de opinião, diagnóstico ou interpretação científica.
Carla Carvalho