Carla Carvalho

Carla Carvalho

Direitos, Autogestão & Sexualidades

Março Lilás para mulheres negras: prevenção, autonomia e políticas públicas para enfrentar o racismo em saúde

O Março Lilás é um marco anual de conscientização sobre a prevenção do câncer do colo do útero. Mas, quando olhamos para a realidade das mulheres negras no Brasil — e especialmente em Salvador, cidade de maioria negra — esse mês se transforma em um chamado urgente para fortalecer políticas públicas que enfrentem desigualdades históricas.

O câncer do colo do útero é evitável e tratável, mas ainda figura entre as principais causas de morte de mulheres negras. Isso não acontece por acaso. É resultado de um conjunto de fatores estruturais que atravessam o acesso à saúde, a qualidade do atendimento e a forma como o Estado responde às necessidades dessa população.

Em Salvador, pesquisas de instituições acadêmicas e órgãos de saúde mostram que mulheres negras:

  • realizam menos exames preventivos,
  • enfrentam maior dificuldade de acesso às unidades,
  • recebem menos informações sobre prevenção e,
  • são mais expostas à negligência e ao racismo institucional.

Esses dados evidenciam o que Djamila Ribeiro aponta em suas reflexões: o racismo estrutural não é um comportamento individual, mas um sistema que organiza desigualdades e define quem tem acesso pleno a direitos. Na saúde, isso se traduz em políticas insuficientes, práticas discriminatórias e ausência de estratégias específicas para populações vulnerabilizadas.

Por isso, o Março Lilás precisa ser entendido como uma agenda de saúde pública — e também como uma agenda de equidade racial.

Políticas públicas que salvam vidas

O Sistema Único de Saúde (SUS) oferece, de forma gratuita:

  • exame preventivo (Papanicolau),
  • vacinação contra o HPV,
  • acompanhamento especializado e,
  • tratamento integral para o câncer do colo do útero.

Esses serviços são garantias constitucionais. No entanto, para que cheguem efetivamente às mulheres negras, é necessário que o poder público invista em:

  • ampliação do acesso territorial,
  • formação antirracista de profissionais,
  • campanhas específicas para populações negras,
  • fortalecimento da atenção básica,
  • e monitoramento de práticas discriminatórias nas unidades.

Sem enfrentar o racismo institucional, o SUS não cumpre plenamente seu princípio de equidade.

Por que esta campanha importa

O Março Lilás para Mulheres Negras é mais do que uma ação educativa. É uma estratégia de mobilização social e política que:

  • denuncia desigualdades,
  • reivindica direitos,
  • fortalece a autonomia das mulheres,
  • e pressiona por políticas públicas mais eficazes.

É também um convite para que gestores, profissionais de saúde e toda a sociedade reconheçam que a prevenção só é possível quando há acesso, acolhimento e respeito.

Cuidado como direito, não como privilégio

Inspirando-nos em Djamila Ribeiro, é preciso afirmar: não basta dizer que todas as mulheres têm direito à saúde; é necessário criar condições reais para que esse direito seja exercido. Isso significa combater o racismo em todas as suas formas — estrutural, institucional e interpessoal — e garantir que mulheres negras sejam vistas, ouvidas e atendidas com dignidade.

Neste Março Lilás, reafirmamos o compromisso com políticas públicas que promovam justiça social e cuidado integral. Porque toda mulher negra merece viver com saúde, autonomia e respeito.

Cuidar da saúde é um ato de resistência.

E políticas públicas comprometidas com equidade são o caminho para transformar essa resistência em garantia de direitos.

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