A cada consulta ignorada, a cada dor desacreditada, a cada parto marcado por violência, uma verdade incômoda se repete: a dor da mulher negra tem dono e ele atende pelo nome de racismo estrutural. Não é exagero, não é metáfora. É cotidiano. É política pública falha. É ciência que nos estuda pouco e nos escuta menos. Mas também é o ponto de partida para uma virada histórica. Porque, quando nomeamos a negligência, abrimos caminho para enfrentá‑la. E quando recuperamos nossos saberes ancestrais de cuidado, deixamos claro que não seremos silenciadas. Nunca mais.
A campanha Março Lilás nos convoca a olhar para a saúde da mulher com profundidade, coragem e compromisso. Mas, ao falarmos especificamente da saúde de mulheres negras, uma ferida fica visível como mostra de um sofrimento histórico. Ferida aberta pelo racismo estrutural, mantida por práticas médicas desumanizantes e reforçada por políticas públicas que, muitas vezes, ignoram nossas necessidades mais básicas.
A pergunta que ecoa é simples, embora dolorosa: por que a saúde da mulher negra continua sendo negligenciada? E, mais importante ainda: como rompemos esse ciclo?
Racismo obstétrico e ginecológico: quando o cuidado se transforma em violência
Mulheres negras são as que mais morrem de causas evitáveis na gestação, no parto e no pós-parto. São as que mais têm suas dores desacreditadas, seus relatos minimizados e seus corpos tratados como resistentes, “fortes demais”, “tolerantes demais”. Essa percepção racista — herdada de séculos de escravidão — ainda orienta condutas clínicas, mesmo que de forma silenciosa.
No cotidiano do consultório ginecológico, a violência se manifesta em exames feitos sem consentimento, comentários invasivos, falta de explicação sobre procedimentos e ausência de escuta qualificada. No parto, aparece na negação de analgesia, na pressa em intervir sem necessidade, na infantilização da gestante e/ou na culpabilização da mãe.
Essas práticas violam direitos fundamentais:
- direito à informação,
- direito ao consentimento livre e esclarecido,
- direito à dignidade,
- direito à saúde sexual e reprodutiva sem discriminação.
Quando o sistema falha, não é por falta de conhecimento técnico. É por falta de compromisso ético com a humanidade das mulheres negras.
Racismo obstétrico e ginecológico: quando o cuidado se transforma em violência
Mulheres negras são as que mais morrem de causas evitáveis na gestação, no parto e no pós-parto. São as que mais têm suas dores desacreditadas, seus relatos minimizados e seus corpos tratados como resistentes, “fortes demais”, “tolerantes demais”. Essa percepção racista — herdada de séculos de escravidão — ainda orienta condutas clínicas, mesmo que de forma silenciosa.
No consultório ginecológico, a violência se manifesta em exames feitos sem consentimento, comentários invasivos, falta de explicação sobre procedimentos e ausência de escuta qualificada. No parto, aparece na negação de analgesia, na pressa em intervir sem necessidade, na infantilização da gestante, na culpabilização da mãe.
Essas práticas violam direitos fundamentais:
- direito à informação,
- direito ao consentimento livre e esclarecido,
- direito à dignidade,
- direito à saúde sexual e reprodutiva sem discriminação.
Quando o sistema falha, não é por falta de conhecimento técnico. É por falta de compromisso ético com a humanidade das mulheres negras.
A medicalização excessiva da menopausa: quando o corpo maduro da mulher negra é silenciado
A menopausa, etapa natural da vida, tem sido tratada como doença e não como transição. Para mulheres negras, essa medicalização é ainda mais problemática. Muitas chegam à menopausa sem nunca terem tido acompanhamento ginecológico adequado. Outras enfrentam sintomas intensos que são ignorados ou subestimados.
Além disso, estudos mostram que mulheres negras tendem a iniciar a menopausa mais cedo e a sentir sintomas mais severos, mas raramente são incluídas em pesquisas clínicas. Resultado: tratamentos padronizados que não consideram nossas especificidades, nossos contextos e nossas vivências.
A menopausa não é um fracasso do corpo, e sim um rito de passagem. E, quando tratada com respeito, pode ser vivida com autonomia, prazer e potência.
Quando o silêncio institucional também adoece: o CREMEB e o racismo na saúde
Ao falar de racismo obstétrico e ginecológico, é impossível ignorar que as instituições médicas brasileiras ainda caminham lentamente — quando caminham — no enfrentamento desse problema. O Conselho Regional de Medicina do Estado da Bahia (CREMEB), por exemplo, não possui até hoje um posicionamento público específico sobre racismo obstétrico ou ginecológico. Não há notas, resoluções ou diretrizes próprias que reconheçam essa forma de violência como prática estrutural que afeta de maneira desproporcional as mulheres negras.
O que existe são posicionamentos genéricos contra discriminação, reafirmando que o racismo é infração ética e que profissionais podem ser responsabilizados. Mas isso não é o mesmo que reconhecer a violência racial que atravessa o parto, o pré-natal, a ginecologia e o cuidado reprodutivo. Esse silêncio institucional não é neutro, produz consequências. Mantém invisível aquilo que já deveria ser tratado como urgência sanitária.
É aqui que a reflexão de Djamila Ribeiro (filósofa e escritora) se torna fundamental. Ela nos lembra que o racismo institucional opera justamente na ausência: na falta de protocolos, na falta de responsabilização, na falta de nomeação. Quando instituições não reconhecem práticas discriminatórias específicas, elas contribuem para sua continuidade. No campo da saúde da mulher negra, isso significa perpetuar a ideia de que nossa dor é exagero, que nossos corpos são resistentes por natureza, que nossas queixas são secundárias.
Djamila aponta que romper esse ciclo exige mais do que declarações genéricas: exige nomear o problema, assumir responsabilidade e transformar práticas. Enquanto isso não acontece, seguimos enfrentando um sistema que nos escuta pouco, nos pesquisa menos e nos protege quase nunca. E é justamente por isso que falar de racismo ginecológico e obstétrico é tão urgente. Porque, quando as instituições se calam, somos nós que precisamos fazer barulho.
Rompendo o ciclo: autocuidado como prática ancestral
Antes de existir medicina institucionalizada, existiam mulheres negras cuidando de mulheres negras. Parteiras, benzedeiras, rezadeiras, curandeiras, guardiãs de saberes que atravessaram oceanos e resistiram ao apagamento. Resgatar esse legado não significa rejeitar a medicina moderna, e, sim, recolocar o cuidado no centro, com protagonismo, consciência e autonomia.
Algumas práticas ancestrais que fortalecem esse caminho:
1. Escuta do corpo
O corpo fala e nossas ancestrais sempre souberam disso. Observar ciclos, padrões, dores, mudanças e emoções é um ato de soberania sobre si.
2. Cuidado comunitário
Mulheres negras sempre sobreviveram em rede. Conversar, trocar experiências, compartilhar medos e descobertas cria um ambiente de proteção e validação.
3. Ritualizar o autocuidado
Vaporizações uterinas, banhos de ervas, massagens, chás, momentos de pausa e respiração consciente. Não como “mimos”, mas como práticas de reconexão com a própria energia vital.
4. Informação como ferramenta de libertação
Conhecer direitos, entender protocolos de atendimento, exigir consentimento e buscar profissionais comprometidos com equidade é parte do autocuidado.
5. Reivindicar políticas públicas antirracistas
Autocuidado não substitui Estado. Noutro prisma, fortalece mulheres para reivindicar o que lhes é de direito: atendimento digno, acesso a exames, acolhimento humanizado e políticas que reconheçam desigualdades raciais.
Autocuidado não é luxo, é sobrevivência
Falar de autocuidado para mulheres negras não é propor luxo, inspirar a vaidade ou “criar” tendência. É destacar a importância dos meios de sobrevivência. É destacar uma prática ancestral que sempre nos manteve vivas, mesmo quando o mundo insistia em nos negar humanidade.
É impossível abordar esse tema sem lembrar das palavras de Audre Lorde, que transformou o autocuidado em manifesto político. Para ela, “cuidar de mim mesma não é autoindulgência, é autopreservação — e isso é um ato de guerra política.” Essa frase não é apenas bonita. É um lembrete urgente de que, em uma sociedade que nos desgasta, nos adoece e nos silencia, cuidar de si é um gesto radical de resistência.
O autocuidado ancestral das mulheres negras sempre foi isso:
- um modo de proteger o corpo quando o Estado não protege,
- um modo de fortalecer o espírito quando a sociedade tenta quebrá-lo e,
- um modo de manter a comunidade viva quando tudo ao redor tenta destruí-la.
Ao resgatar práticas como escuta do corpo, rituais com ervas, cuidado comunitário, descanso consciente e informação como ferramenta de libertação, não estamos apenas “relaxando”. Estamos honrando uma linhagem de mulheres que sobreviveram porque se cuidaram — e cuidaram umas das outras — mesmo sem permissão.
Autocuidado, para mulheres negras, é continuidade, legado e estratégia de futuro. E, como Lorde nos ensinou, é também uma forma de dizer ao mundo: não vão nos destruir. Estamos aqui, inteiras, porque escolhemos viver.
O futuro que queremos
Rompemos o ciclo quando deixamos de aceitar o mínimo, ao nomearmos o racismo institucional, quando exigimos respeito. Também quando cuidamos de nós mesmas com a mesma reverência que nossas ancestrais dedicavam às suas comunidades e, ao transformarmos dor em mobilização e, consequentemente, mobilização em mudança.
A saúde da mulher negra não pode mais ser negligenciada. Não por falta de conhecimento. Não por falta de políticas. E muito menos por falta de coragem. Estamos aqui, neste agora, vivas e já despertas. Prontas para redesenhar o cuidado com ciência, ancestralidade e a força de todas que vieram antes de nós.
Março Lilás: saúde, ética e política
Março Lilás não é apenas um mês de prevenção: é um lembrete de que a saúde da mulher precisa ser tratada com seriedade, dignidade e justiça. Para nós, mulheres negras, esse mês também é um convite à memória e à ação. É o momento de reafirmar que nossas vidas importam, que nossos corpos não são território de negligência e que nossa dor não será mais normalizada.
Djamila Ribeiro nos ensina que nomear o racismo é o primeiro passo para desmontá‑lo. Audre Lorde nos lembra que cuidar de nós mesmas é um ato político capaz de desafiar estruturas inteiras. Quando unimos essas duas forças — a lucidez crítica e a coragem de existir plenamente — abrimos caminho para um novo paradigma de cuidado.
Que este Março Lilás seja mais do que campanha: seja marco, ruptura e ao mesmo tempo recomeço. Porque quando mulheres negras reivindicam saúde, reivindicam futuro. E ao reivindicarmos o futuro, movimentamos o mundo.
Carla Carvalho