Hoje, no Dia da Visibilidade Trans, tomo a palavra para afirmar algo que precisa ser dito com firmeza: a transfobia não é um debate, não é uma divergência, não é uma opinião. A transfobia é uma prática de violência que estrutura mentalidades, instituições e políticas. E este pronunciamento é dirigido justamente a essas mentalidades resistentes, às consciências que ainda se apoiam em preconceitos para justificar exclusões, às vozes que insistem em negar a humanidade das mulheres trans.
Catharine MacKinnon nos ensinou que a desigualdade de gênero não é um acidente histórico, mas um sistema organizado para manter mulheres em posições subordinadas. Quando olhamos para a vida das mulheres trans sob essa perspectiva, vemos como esse sistema opera com ainda mais brutalidade: ele tenta negar que elas sejam mulheres, tenta expulsá-las da categoria humana, tenta impedir que seus corpos tenham legitimidade social. A violência, nesse contexto, não é exceção — é método.
Judith Butler nos lembra que o gênero é uma construção reiterada, e que corpos que desafiam normas são tratados como corpos que precisam ser corrigidos, punidos, apagados. É exatamente isso que se revela quando uma mulher trans ousa ocupar um espaço político. A resistência à eleição da deputada Erika Hilton para presidir a Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara dos Deputados não é um episódio isolado. É a expressão de um pânico moral que se ativa sempre que uma mulher trans rompe o lugar que lhe foi imposto. Não se trata de divergência democrática. Trata-se da recusa em aceitar que mulheres trans existam como sujeitos políticos.
E essa recusa não se limita ao Parlamento. Ela atravessa a vida de meninas e mulheres trans desde cedo. Ela se manifesta na família que expulsa, na escola que humilha, no mercado de trabalho que fecha portas, no Estado que burocratiza direitos, na sociedade que naturaliza a exclusão. É uma violência que tenta expulsá-las de todos os lugares onde poderiam viver com dignidade.
Ainda assim, elas resistem. Trabalham. Criam. Produzem. Constroem beleza onde o mundo lhes oferece hostilidade. E fazem isso não porque são heroínas mitológicas, mas porque têm o direito de viver. Porque querem viver. Porque ninguém deveria ter que provar sua humanidade para existir.
Este pronunciamento é um manifesto por todas as mulheres trans que lutam para viver de seu trabalho, de seu talento, de seu dom, em um país que tantas vezes tenta empurrá-las para a marginalidade. É um manifesto contra a lógica que insiste em tratá-las como não-sujeitos de direitos, como se suas existências fosse uma concessão e não um fato.
A quem ainda insiste em negar sua humanidade, é preciso dizer com clareza: não se trata de defender valores, mas de defender privilégios. Não se trata de proteger mulheres, e, sim, de proteger fronteiras imaginárias que servem apenas para excluir. Não se trata de preservar a ordem, ao revés, de perpetuar a violência.
A violência contra mulheres trans não é um fenômeno isolado. É a expressão mais crua de uma sociedade que decide quem merece viver plenamente e quem deve ser empurrada para sobreviver no limite. Ela nasce de discursos que desumanizam, de políticas que excluem, de práticas que silenciam.
Porém, hoje, neste dia, afirmo algo que precisa ecoar: vocês não vencerão.
Porque cada mulher trans que se levanta, que trabalha, que cria, que ocupa espaço, que exige direitos, que reivindica seu nome e sua história, desmonta um pedaço dessa estrutura de opressão. Cada mulher trans que vive é uma ruptura. Cada mulher trans que sonha é uma ameaça ao sistema que tenta apagá-la. Cada mulher trans que prospera é uma vitória coletiva.
A visibilidade trans não é um pedido de permissão. É uma declaração de existência. É um ato político. É a recusa em aceitar o silêncio imposto. É o anúncio de que não há mais retorno.
As mulheres trans estão aqui. Estão vivas. Estão lutando. Estão produzindo cultura, ciência, política, arte, pensamento. Estão transformando o mundo — mesmo quando o mundo tenta destruí-las.
Este é o registro do meu compromisso: não descansarei enquanto a dignidade das mulheres trans não for inegociável.
Salvador-BA, 31 de março de 2026.
Dia Internacional da Visibilidade Transgênero
Carla Carvalho