Carla Carvalho

Carla Carvalho

Sexcoach e Terapeuta Holística

Quando a Liderança da Mulher Negra se Torna Caminho, Raiz e Futuro

O Mulherismo Africana, formulado pela intelectual afro‑estadunidense Clenora Hudson-Weems, nasce como uma resposta necessária às teorias feministas que não contemplavam a experiência da mulher negra em sua totalidade. Hudson-Weems nos lembra que a mulher negra não precisa ser encaixada em estruturas que não foram feitas para ela — porque ela já possui, em sua ancestralidade, os alicerces para construir sua própria filosofia de vida, luta e organização comunitária.

No centro dessa perspectiva está uma afirmação poderosa: a mulher negra é a base civilizatória da comunidade africana e afro-diaspórica. Ela é quem sustenta, organiza, cura, protege e projeta o futuro. Não por imposição, mas por legado ancestral.

O Mulherismo Africana não é uma adaptação do feminismo. É uma cosmovisão própria, enraizada em valores africanos como espiritualidade, coletividade, maternagem social, interdependência e responsabilidade comunitária. É uma filosofia que reconhece que a mulher negra sempre exerceu liderança — mesmo quando o mundo tentou apagar sua voz.

Liderança que nasce da ancestralidade

Quando falamos de autogestão, autonomia e liderança no Desenlaçando, não estamos importando conceitos externos. Estamos reconectando práticas que nossas ancestrais já dominavam:

  • a oralidade como ferramenta de organização;
  • a circularidade como método de decisão coletiva;
  • o cuidado comunitário como estratégia política e,
  • a visão de futuro como compromisso com as próximas gerações.

Essas tecnologias ancestrais, tão presentes no cotidiano das mulheres negras 40+, são expressões vivas do que Hudson-Weems descreve como a centralidade da mulher africana na manutenção da vida.

Mulherismo Africana é cura, é política, é caminho

Ao contrário das narrativas que reduzem a mulher negra à resistência, o Mulherismo Africana afirma sua plenitude: espiritual, emocional, intelectual e comunitária. Ele nos convida a olhar para nós mesmas não como sobreviventes, mas como criadoras de mundos.

E é justamente por isso que, aqui no Desenlaçando, tratamos liderança como um ato ancestral. Cada decisão que tomamos, cada limite que estabelecemos, cada projeto que construímos é parte de uma longa linhagem de mulheres que abriram caminhos antes de nós — e que caminham conosco.

Desenlaçar é lembrar quem somos

Ao trazer o Mulherismo Africana para o centro das conversas sobre autogestão, sexualidade, direito e maturidade, reafirmamos que a mulher negra 40+ não está começando agora. Ela está retornando a si, como ensina o princípio Sankofa.

Desenlaçar é isso: soltar os nós que não nos pertencem, reconhecer nossas tecnologias internas, e caminhar com a certeza de que somos raiz, corpo e futuro.

Encerrar esse texto no Dia da Cultura Africana é reafirmar que nossa caminhada não começa em nós — ela é continuidade. Essa data celebra não apenas a riqueza estética, espiritual e intelectual dos povos africanos, mas também a força política das mulheres negras que sustentam comunidades inteiras com saberes que antecedem qualquer teoria ocidental. Ao honrar esse dia, honramos também o legado que inspira o Mulherismo Africana e a visão de Clenora Hudson-Weems: a certeza de que nossas práticas, nossas tecnologias ancestrais e nossa liderança são patrimônios vivos. Que este 24 de janeiro nos lembre que cada passo que damos é também um gesto de preservação, afirmação e futuro para toda a diáspora.

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